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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Um "rosto sensível"...

Uma crítica à dialética hegeliana

EDUARDO DE ARAÚJO BENTO

Nossa breve reflexão visa apresentar as principais contraposições entre o método analético proposto pelo filósofo argentino Enrique Dussel com a chamada dialética hegeliana do século XIX. Este trabalho será feito a partir da leitura do texto “Método para uma filosofia da liberação”, mais precisamente no item do parágrafo 26 intitulado “O método dialético positivo. O momento analético”. Apesar de o texto apresentar as perspectivas de Dussel a respeito de tantos outros pensadores europeus, além de Hegel, nossa principal atenção será dada somente à crítica dusseliana relativamente ao conceito da dialética totalizante, ou aquilo a que ele chama, à luz de Feuerbach, de falsa dialética. Seus desdobramentos em outras correntes filosóficas, ou outros conceitos de diversos pensadores, não serão abordados no presente estudo, pois, o que interessa-nos aqui é somente explicitar o que é a dita analética proposta por Dussel.

Para se efetivar um método dialético positivo, ou seja, um momento analético, nós devemos, em primeira instância, considerar o outro não como um mero absoluto-de-si, interdependente na relação com o mesmo-absoluto-de-si, pois, estaríamos falando de uma totalidade que não somos nós. Aqui e sempre, não fazemos parte das considerações filosóficas de uma dialética falsamente distante do nosso verdadeiro lugar. Este método está para além de toda dia-lética européia que gira em torno de si-mesma, como se fosse um pequeno universo, dentre tantos outros possíveis, onde minúsculas constelações (os outros) são apenas subservientes e ficam ao redor de uma “grande” galáxia carente de realização para se efetivar (o Mesmo).

Nós somos a América Latina, o verdadeiro outro relativamente à totalidade européia. Somos o povo pobre e oprimido: o índio, o africano, o asiático. É sobre este espaço, sobre esta população que emerge a ana-lética. Muito embora ainda haja a trans-valoração do movimento-de-si acima “do outro enquanto livre, como um além do sistema da totalidade”[1]. Esta trans-valoração é um movimento meramente expansionista de dominação e efetivação ideológica desta dialética considerada falsa; é um ente-consigo-mesmo (outro-de-si), em seu ser (o Mesmo) fechado e inautenticamente aceito como único.

Contudo, a analética é antropológica. Ela não considera somente uma analogia do “rosto sensível do outro”[2]. Não é simplesmente como outro-sensível-em-si, mas, muito além de considerar-se uma unidade totalizante, ela admite uma criação e um trabalho. Em termos relativos do outro ser, sempre há um vis-à-vis, ou seja, um estar defronte com o outro rosto e, sendo assim, este rosto do outro “é o dizer em pessoa, é o gesto significante essencial, é o conteúdo de toda significação possível em ato”[3]. Este atributo antropológico da analética é também, como afirma Dussel, uma significação econômica, política e erótica. O outro é uma revelação, um semelhante (aná-), um pensamento que parte de sua palavra e admite seus gestos. Não é pura e simplesmente uma subsunção e uma suprassunção aos termos de Hegel; é a própria libertação de um movimento meramente dominador. É a superação dos ditames europeus acerca do que deveria ser a filosofia, ou seja, é toda uma crítica ao modelo dia-lético proposto desde a chamada Modernidade.

O momento ana-lético é aquele que irrompe com a totalidade ontológica, ao qual, Dussel, indica quais são os passos do movimento do método:

Em primeiro lugar, o discurso filosófico parte da cotidianidade ôntica e dirige-se dia-lética e ontologicamente para o fundamento. Em segundo lugar, de-monstra cientificamente (epistemática, apo-diticamente) os entes como possibilidades existenciais. É a filosofia como ciência, relação fundante do ontológico sobre o ôntico. Em terceiro lugar, entre os entes há um que é irredutível a uma de-dução ou de-monstração a partir do fundamento: o “rosto” ôntico do outro que, em sua visibilidade, permanece presente como trans-ontológico, meta-físico, ético.[4]

Assim, a analética, pelo rompimento com a tradição da dialética hegeliana, supera a noção totalizante do Mesmo-de-si e do outro-de-si, em direção ao “rosto” do outro como outro, existente em mais de um sujeito: este momento é revelado em um quarto movimento no

Discurso negativo a partir da totalidade, porque pensa a impossibilidade de pensar o outro positivamente partindo da própria totalidade; discurso positivo da totalidade, quando pensa a possibilidade de interpretar a revelação do outro a partir do outro (...) porque a negatividade primeira do outro questionou o nível ontológico que, agora é criado, com base num novo âmbito. O discurso se faz ético e o nível fundamental ontológico descobre-se como não originário, como aberto a partir do ético (...)[5]

E ainda há uma quinta fração deste movimento, ligado ao momento ético que vai além das possibilidades ontológicas, em que

O próprio nível ôntico das possibilidades fica julgado e relançado a partir de um fundamento eticamente estabelecido, e estas possibilidades como práxis analética transpassam a ordem ontológica e se adiantam como “serviço” na justiça.[6]

Se nós falamos sobre uma dia-lética falsa – aquela que é meramente teórica, um simples “discurso ôntico das ciências ou ontológico da dialética”[7] - em contraposição ao método dialético positivo que, segundo Dussel, aceita ao outro como sendo outro, trata-se então de uma escolha ética, ou seja, um comprometimento moral. Este método dialético positivo, enquanto moral, é a ana-lética: é o “negar-se como totalidade, afirmar-se como finito, ser ateu do fundamento como identidade”[8].

Por fim, reafirmamos que o momento ana-lético não é o de negação do outro, tal como é o movimento dia-lético. E cabe ainda salientar que o vis-à-vis do verdadeiro filósofo latino-americano é aquele que não está comprometido com a ontologia, é o deixar-se ser outro: superar e libertar-se das amarras de uma dia-lética que simplesmente nega-se ao outro-de-si, embora não negue uma necessidade epistemológica. Esta falsa dia-lética não assume o momento aná-logo libertador, é meramente a negação da negação, é a forma de uma síntese entre as partes afirmativa e negativa que, grosso modo, “diz” movimentar-se em si mesma, mas que não é mais que um “aprisionamento” na afirmação de uma totalidade inexistente – enclausuramento que não deveria existir – em nossa vivência. A ana-lética, além de considerar o semelhante, é uma voz exterior que vem de cima (aná-); é a afirmação da exterioridade do outro. Portanto, é o grito dos oprimidos que somos todos nós, o povo não-europeu, a população latino-americana, índia, africana e asiática.



[1] DUSSEL, E. Método para uma filosofia da libertação, p. 196.

[2] Id., ibid., p. 197.

[3] Cf. Ibid.

[4] Id., ibid., p. 197-8.

[5] Id., ibid., p. 198.

[6] Cf. Ibid.

[7] Cf. Ibid.

[8] Cf. Ibid.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dialética

Um novo horizonte

EDUARDO DE ARAÚJO BENTO

HENRIQUE AZEVEDO NOGUEIRA

Pelo impulso carente-de-si, o espírito desdobra-se em um processo de atualização, verticalizando-se dialeticamente, apreendendo a negação-de-si e subsumindo-a para atualizar-se. E neste movimento, perde-se para uma nova imagem de si.

A contínua formação do espírito se expande neste processo dialético, tanto quanto se desmorona violenta e gradativamente, impulsionado pelo tédio e pela superficialidade do contingente, desejando reconciliar-se com o absoluto.

O todo se dá de modo dialético racional, pela necessidade de reconhecer-se na sua negação. Portanto, a constituição do todo não é um fim, mas sim uma eterna reconciliação do outro-de-si-para-si...