Na próxima postagem colocarei algumas análises acerca desse quadro...
Apresento-lhes as primeiras linhas de um maravilhoso texto de Gilles Deleuze e Félix Guattari[1], em que a velha metáfora que diz que somos “Máquinas” é substituída, no âmbito do desejo, por uma condição de sermos estritamente máquinas, sem metáfora alguma. A indicação da página do texto original aparecerá em colchetes [parênteses reto], bem como as notas do tradutor [NT] estarão igualmente indicadas da mesma forma. Na sequência, logo após o texto traduzido para o português, colocarei o texto original em francês para aqueles que têm proficiência na língua, e preferem ler o texto com suas palavras e períodos advindos direto de sua origem primeira. Desejo que gozem das sábias palavras a seguir:
Capítulo I
AS MÁQUINAS DESEJANTES
[7]
[I.1. A PRODUÇÃO DESEJANTE]
Isso funciona em toda parte: às vezes sem parar, outras vezes descontinuamente. Isso respira, isso aquece, isso come. Isso caga, isso fode. Mas que erro ter dito o isso. Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões. Uma máquina-órgão é conectada a uma máquina-fonte: esta emite um fluxo que a outra corta. O seio é uma máquina que produz leite, e a boca, uma máquina acoplada a ela. A boca do anoréxico hesita entre uma máquina de comer, uma máquina anal, uma máquina de falar, uma máquina de respirar (crise de asma). É assim que todos somos “bricoleurs”;[2] cada um com as suas pequenas máquinas. Uma máquina-orgão para uma máquina-energia, sempre fluxos e cortes. O presidente Schreber[3] tem os raios do céu no cu. Ânus solar. E estejam certos de que isso funciona. O presidente Schreber sente algo, produz algo, e é capaz de fazer a teoria disso. Algo se produz: efeitos de máquina e não metáforas. [...]
chapitre 1
les machines désirantes
Ça fonctionne partout, tantôt sans arrêt, tantôt discontinu. Ça respire, ça chauffe, ça mange. Ça chie, ça baise. Quelle erreur d'avoir dit le ça. Partout ce sont des machines, pas du tout métaphoriquement: des machines de machines, avec leurs couplages, leurs connexions. Une machine-organe est branchée sur une machine-source : l'une émet un flux, que l'autre coupe. Le sein est une machine qui produit du lait, et la bouche, une machine couplée sur celle-là. La bouche de l'anorexique hésite entre une machine à manger, une machine anale, une machine à parler, une machine à respirer (crise d'asthme). C'est ainsi qu'on est tous bricoleurs; chacun ses petites machines. Une machine-organe pour une machine-énergie, toujours des flux et des coupures. Le président Schreber a les rayons du ciel dans le cul. Anus solaire. Et soyez sûrs que ça marche; le président Schreber sent quelque chose, produit quelque chose, et peut en faire la théorie. Quelque chose se produit: des effets de machine, et non des métaphores. […][5]
[1] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia 1. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 11.
[2] NT [“Todos somos bricoleurs”, não apenas no sentido de podermos desviar múltiplas coisas deste ou daquele conjunto funcional para vários outros, mas também porque nossas próprias máquinas se engrenam multiplamente.]
[3] NT [Daniel Paul Schreber (1842-1911), autor de Denkwürdigkeiten eines Nevenkranken (1903); edição brasileira: Memórias de um doente dos nervos, tradução de Marilene Carone, São Paulo, Paz e Terra, 1995.]
[4] Richard Lindner, Boy with Machine (1954, ole, 40 x 30, Mr and Mrs C. L. Harrisson, Batavia, Ohio).
[5] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. L’Anti Œdipe: Capitalisme et schizophrénie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1972/1973, p. 7.

Quando a vida nos traz
Um carinho assim;
Querer bem é o saber que não foi.
Quando a vida desfaz
Um caminho sem fim
É sinal que alguém já se foi.
Agora, aqui...
Com novas cores todo som se transforma
Em algo mais d’alma que escondida estava,
Sem atingir um tom maior na escala,
Todas as notas reverberam a morte
De não entender como ir além
Sem que as coisas fiquem em seu lugar;
Como pensar se o medo está
Perto de ninguém que não compreendeu?
Tara-darinara
Paragarinô
Quando a vida nos traz
Um carinho assim;
Querer bem é o saber que não foi.
Quando a vida desfaz
Um caminho sem fim
É sinal que alguém já se foi.
Agora, aqui...
Para escutar a canção basta acessar o MYSPACE
Veja também um pequeno vídeo com parte da música:



OS PALAVRÕES E AS COISAS
OU O PROIBIDÃO DA FILOSOFIA
EDUARDO DE ARAÚJO BENTO
SÉRGIO LIMA NASTASI
PREÂMBULO: DO HERMETISMO AO DIDATISMO
O GRANDE CÉREBRO PELUDO

Parece-nos existir um hiato entre o que exprimem as palavras Entender e Aprender. Tomemos essa noção de Entender, aqui, como algo que se sustenta apenas como agente da opinião (δόξα), não como um conceito que nos apresenta sua forma robusta de compreensão. Aprender pode ser muito mais perigoso que Entender, visto que alguns conceitos penetram surdamente os fundilhos do pensamento. O entendimento imediato percebe “os” signos, ao passo que o apreender supõe “o” significado, isto é, a imediatez é da ordem do Entender assim como o apreender é a própria dimensão do Aprender. Para além das dicotomias que o nosso assunto sugere, há um terceiro campo em que a tensão signo-significado pode advir de modo sorrateiro, se desdobrar, fazendo com que a δόξα e o conceito fiquem logo de escanteio. A este negro buraco daremos o nome de buraco negro.
Contudo, esta terceira via nebulosa é dada por uma compreensão apática e arbitrária das condições particulares do pensamento, na qual a representação do signo-significado nada mais é que um universo singular de uma mente qualquer. Estes são compostos por espasmos tão concretos e afastados da plenitude de um conceito, ou seja, pouco distantes de uma contingência doxológica. Isto é, na atitude de uma apreensão e na rapidez de uma percepção, com esta terça parte obscura da formação de uma pluralidade individual, o ato pensar-falar-ver está condenado ao fechamento das palavras, das ações e da passividade em sua condição hermética de ser. Não obstante, há uma adição contrária de um aposto transluzente em um dado momento entreaberto da noção saber-ver-falar. Todas essas hierarquias conceituais não são mais que a distância referida, ao qual o modo, a maneira e a medida estão sempre interligadas em uma síntese ternária da paixão, da desgraça e da vontade inseridas ao campo do Aprender. Em contrapartida, a refutação ligada ao Entender é a pura falta de vontade de ser. Tal como cada parte de um todo segue um único fluxo, ou poderíamos ainda aludir como cada louco do período medievo segue sua nau com um único destino certo para a total exclusão antropológica.
Vimos, portanto, que o dito terceiro lugar não é exatamente um terceiro elemento, como tudo isso parece propor, mas talvez ele se ofereça como um período oscilante entre o 1 e o ∞. Todavia, se este “meio” vai do 1 até o ∞, não sabemos. Também não sabemos se o buraco negro do cognitivo se estende da δόξα ao Conceito, ou se ao encontrar o conceito ele se vê desarmado em seu desdobramento infinito. E ainda que essa ignorância nos acabrunhe, aqui nasce uma questão: há alguma coisa entre signo e significado que possa ou não permitir o êxodo do Entender ao Aprender?
Não é traçar uma ponte do continente à Nau dos Loucos. Não é fazer rimar, com toda força, δόξα com opinião na sala de aula. Nada disso. É, sobretudo, pensar o pensamento, falar a fala, ver a visão e saber o saber. Ir do ∞ ao ∞ — não há um término, assim como não houve um início vinculado a uma verdade velada de uma indeterminação incompreensível.
Toda razão passa pelo raio abrupto das insignificâncias minuciosas dos saberes estabelecidos, pelos discursos “fechados”, nas impressões circulares de um conceito que não deveria sofrer por sua “linearidade”. Só quem tem cu arrombado é que necessita deste caminho em direção às definições paradoxais dos conceitos inerentes à destruição: vamos dar uma abertura para as palavras baixas que horrorizam as velhotas eruditas.
Há quem diga que o conceito, pelo seu máximo abstrato, é muito vago e pouco útil; por outro lado, ou pelo seu mínimo concreto, ele é um tanto doxológico e pueril. Podemos considerar, assim, que os limites do conceito (seu para-além do máximo abstrato) residem na próxima borda do buraco negro — talvez este acontecimento seja o Desaprender.
Ocorre algo semelhante na outra ponta, isto é, nada entendemos porque não há um mínimo de signo, não temos, então, o que entender antes do nascimento de um signo — quem sabe este acontecimento seja o Desentender.
Nada impede que o 1 faça parte de outra infinitude, que o buraco negro seja também ∞, ou que o ∞ dos desdobramentos conceituais façam o próprio conceito ∞. Ora, com isso não estamos a apontar três infinitudes? Sendo assim, é preciso ter, ao menos, três pernas para não se perder na compreensão de uma fala, por exemplo. E quem pode declarar que pré-entender e pré-aprender são formas do (não-) Ser?
O máximo abstrato é de arrepiar os pelos cerebrais de uma virgem seminua, e nos faz traçar uma linha vertical rumo a um nada incomposto de ser, desonestamente sem “essência” e vergonhosamente bem vestido. Não há o que cogitar se, antes de qualquer dúvida hiperbólica, não dizemos em quais condições possíveis existe a falta de (do) Ser. Podemos, em linhas gerais, admitir que haja um entendimento inato, ou até mesmo um a priori linguístico de uma apreensão nas mesmas condições e características das inúmeras negações do ∞? Se, ao invés de cogitarmos para validar a existência nós disséssemos necessariamente a sumária expressão “cogito, sed non sum”, a faixa obscura das vontades do saber, bem como o nosso ponto cego do crer, trar-nos-ia um novo acontecimento? Talvez fosse ele não mais na ordem do seu máximo abstrato do Desaprender, nem o momento factual antes da concepção do signo no plano do Desentender. Porventura, este novo momento, entre os dois eventos supracitados do buraco negro, de uma ponta à outra, intermitentemente, apresentar-mos-ia como a nudez do Desconhecer.
* * *