terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O SER DA LINGUAGEM SEGUNDO MICHEL FOUCAULT
CAPÍTULO 1. O SABER DAS SIMILITUDES: A REPRESENTAÇÃO
COMO REPETIÇÃO
1.1 Preâmbulo
1.2 Uma
conveniente vizinhança
1.3 Correspondência
espelhar
1.4 Convenientia
e aemulatio superpostas
1.5 Simpatia e
antipatia
1.6 A linguagem
em um sistema ternário dos signos
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Linguagem, obra e literatura
Linguagem e literatura: da representação ao desejo
Começaremos a distinguir, na atual seção, o limite entre a epistémê clássica e a era moderna relativamente às caraterísticas constituintes do saber da linguagem entre essas duas épocas para, então, darmos prosseguimento às análises mais detalhadas a respeito da formação da filologia histórica. Este ponto se faz fundamental antes de começarmos a introduzir alguns aspectos que, a partir do século XIX – ou no final do século XVIII –, entram em “cena” na formação dos saberes que dão início à prática institucional das ciências humanas. Portanto o que será abordado, nas linhas posteriores, está diretamente vinculado ao que podemos inferir a respeito dos temas da representação e do desejo àquilo que, possivelmente chamamos, ou não, de literatura[1].
Contudo é mister que façamos algumas distinções entre o que é literatura, linguagem e obra. Para Foucault a literatura não é tão antiga em relação à própria linguagem; ele não considera que as obras de Miguel de Cervantes, ou de William Shakespeare, por exemplo, sejam realmente literárias no sentido estrito. Não que hoje não façam parte da literatura, no entanto, no tempo desses mesmos escritores, não fora possível conceberem essas obras como sendo literatura, pois, por se tratarem de textos que ainda tinham um ranço greco-romano, vinculado com as épocas mais longínquas da história, havia simplesmente uma relação de linguagem: podemos dizer que a literatura é do nosso tempo, da nossa modernidade e só faz sentido a nós mesmos.
Por isso é que se distinguem precisamente essas três características supracitadas (linguagem, obra e literatura). Em primeiro lugar surge a linguagem que “é o murmúrio de tudo que é pronunciado e, ao mesmo tempo, o sistema transparente que faz com que, quando falamos, sejamos compreendidos”[2]; de modo geral, a linguagem é a um tempo o acúmulo das palavras na história e o sistema central de uma língua. Além disso, em segundo lugar, emerge-se a obra que está dentro da própria linguagem e nela constrói o seu espaço – assim como a linguagem se fez moradia dentro do pensamento e, portanto, na representação classicista –; a obra fica imóvel no interior da linguagem, ao ponto de deixar-se densa na opacidade dos signos e das palavras, por fixar nesse espaço todo rumor analógico que advém da fala dos homens, de tal sorte que se constitui assim o seu caráter enigmático e possivelmente turvo. Por conseguinte, em terceiro lugar, aparece enfim a literatura, na qual não podemos considerar como sendo precisamente linguagem ou obra. A literatura não é, pois, um espaço geral e universal por onde se aloja a linguagem e a obra. Ela é como um terceiro ponto, ou seja, é como se fosse o ápice de um triângulo que se faz presente na relação entre a linguagem e a obra e vice-versa.
No entanto, como ainda estamos a traçar o limite entre o classicismo e a modernidade, temos de considerar que, na experiência dos séculos XVII e XVIII, a literatura imbricava-se entre as obras da linguagem. Ela era simplesmente conveniente à linguagem comum dos homens, reunida em seu uso e que constituía, assim, uma obra. A literatura na idade clássica era nada mais que um quesito linguístico de memória, de aproximações entre o saber da linguagem e a obra, isto é, a literatura se dava numa relação passiva com a obra e a linguagem na epistémê do chamado período barroco. Doravante há um momento na história em que a literatura perde esse aspecto meramente passivo e passa a ser prática, ou melhor, torna-se ativa e, ao mesmo tempo, ainda mais profunda e obscura quando ela se eleva relativamente à obra e a linguagem; podemos dizer que essa mudança de um momento passivo da literatura para outro ativo se deu no final do século XVIII ou no início do século XIX – em volta dos trabalhos de Chateaubriand, La Harpe, Mme de Staël etc. E, portanto, deixemos que as próprias palavras de Foucault nos digam o que a literatura possivelmente é nessa relação puramente histórica com a modernidade:
A literatura não é o fato de uma linguagem transformar-se em obra, nem o fato de uma obra ser fabricada com linguagem; a literatura é um terceiro ponto, diferente da linguagem e da obra, exterior à linha reta entre a obra e a linguagem, que, por isso, desenha um espaço vazio, (...) na distância, na separação, no triângulo, na dispersão de origem onde a obra, a literatura e a linguagem se ofuscam mutuamente; isto é, se iluminam e cegam umas às outras para que, talvez graças a isso, algo de seu ser venha sorrateiramente até nós[3].
Todavia, de volta ao classicismo, o ser da linguagem é a representação, e a literatura está, pois, aprisionada nessa relação onde o campo epistêmico está armado de forma coerente e homogênea, mas que, ao mesmo tempo, está num profundo desequilíbrio justamente porque é a representação que comanda e ordena os saberes – há um tanto de instabilidade na ordem clássica: a linguagem se vê desvanecida pela gramática geral; a natureza e a vida dos seres se acham simplesmente classificadas e determinadas pela história natural; a necessidade e o desejo se acham demarcadas na estrutura do valor e da moeda pela análise das riquezas. “A análise da representação tem, portanto, valor determinante para todos os domínios empíricos"[4]; inclusive para a relação entre linguagem e literatura. Com isso o classicismo se fecha em um sistema da ordem, em uma nomenclatura que seja igualmente uma taxinomia, pela qual é possível conhecer as coisas pelo jogo de identidades e diferenças, num sistema de signos transparente à continuidade dos seres (continnum), em que a própria representação se acha num espaço interno e, ao mesmo tempo aberto onde ela mesma se representa e se efetiva. A linguagem é a representação das palavras e, por conseguinte a literatura é nada mais, nada menos, que um texto preconcebido de palavras; “palavras como as outras, mas suficientemente e de tal modo escolhidas que, através delas, passe algo inefável”[5]. Não obstante, já na modernidade, esse inefável aparece absolutamente como um não inefável na experiência da literatura com a linguagem. Podemos entender, portanto, a literatura como se fosse uma fábula, e isso no sentido estrito do termo. Ela pode ser dita numa linguagem que, em seu interior e distante do que outrora fora a representação, torna-se um discurso possível e diferentemente constituído em relação ao seu modo de ser anterior (classicista), pelo qual se reportava diretamente ao indizível, ao silêncio, ao segredo das palavras e dos signos.
Com o fim do pensamento clássico, e a dissolução da gramática geral, a representação perde toda sua primazia e perde, igualmente, sua grande força de ordenar os saberes. Deixa de ter o seu poder de compô-los, ou ao menos, os libera de seu campo representativo e, portanto, a literatura se encontra nesse terreno em que o ato de representar deixa de ter uma função fundamental na epistémê moderna; é por essas razões que a literatura se descola da linguagem para ganhar existência como um tipo de linguagem “autônoma”, mas que se oscila constantemente sobre si mesma. “O espírito obscuro de um povo que fala” escapa, segundo afirma Foucault, “ao modo de ser da representação”[6] na passagem da era clássica para a modernidade:
E esta será duplicada, limitada, guarnecida, mistificada talvez, regida, em todo o caso, do exterior, pelo enorme impulso de uma liberdade, ou de um desejo, ou de uma vontade que se apresentarão como o reverso metafísico da consciência. Alguma coisa como um querer ou uma força vai surgir na experiência moderna – constituindo-a talvez, assinalando, em todo o caso, que a idade clássica acaba de terminar e com ela o reino do discurso representativo, a dinastia de uma representação significando-se a si mesma e enunciando, na sequência de suas palavras, a ordem adormecida das coisas[7].
Além disso, este é o momento em que surge repentinamente a questão do desejo a partir da análise da obra “literária” de Sade. No limite do classicismo, ou limiar da modernidade, os textos de Sade são delimitados por Foucault como o grande acontecimento daquela época. O desejo e a representação do discurso entram em um profundo equilíbrio que, em primeira instância, se faz precário em sua ordem e, em última instância, esse equilíbrio é o que justamente marca a Lei e o Limite da ordem do discurso. Ainda atrelada à questão desse desejo como limite do classicismo, está o papel do libertino que aparece descrito por Foucault como um “personagem” que vê na representação sua função plenamente ordenada, isto é, “toda representação deve animar-se logo no corpo vivo do desejo, todo desejo deve enunciar-se na pura luz de um discurso representativo”[8]. Portanto, há na obra de Sade um ordenamento imoderado ou desregrado da representação; o que marca significativamente esse aspecto é a constituição de “cenas” que, em seu interior, garante certo equilíbrio entre a combinação dos corpos (Ars combinatória) com a ordem das razões.
Do mesmo modo que o personagem de Dom Quixote marcou o limite da Renascença e o início do classicismo, as personagens Justine e Juliette de Sade possivelmente aparecem no limiar da cultura moderna, isso segundo afirma Foucault. Em Les mots et les choses a obra prima de Miguel de Cervantes é analisada nas suas duas partes e, como cada parte se apresenta de forma diversa uma em relação à outra, Foucault faz duas ponderações que se correspondem diretamente a essas partes do romance, principalmente a segunda, com as figuras de Justine e de Juliette. Em suma, eis como se dá a análise das duas partes de Dom Quixote:
O herói de Cervantes, lendo as relações entre o mundo e a linguagem como se fazia no século XVI, decifrando, unicamente pelo jogo da semelhança, castelos nas estalagens e damas nas camponesas, aprisionava-se, sem o saber, no mundo da pura representação; mas, visto que essa representação só tinha por lei a similitude, não podia deixar de aparecer sob a forma irrisória do delírio. Ora, na segunda parte do romance, Dom Quixote recebia desse mundo representado sua verdade e sua lei; não lhe restava mais que esperar desse livro onde nascera, que não lera, mas cujo curso devia seguir, um destino que doravante lhe era imposto pelos outros. Bastava-lhe deixar-se viver num castelo onde ele próprio, que penetrara por sua loucura no mundo da pura representação, se tornava finalmente pura e simples personagem no artifício de uma representação[9].
Na decadência da idade clássica, podemos ver que não há mais a primazia da representação relativamente à similitude renascentista; agora o que está em jogo é a violenta repetição do desejo acima dos limites da representação. É justamente essa consideração que se faz a respeito da segunda parte do romance de Miguel de Cervantes, na qual podemos vincular, em grande medida, a personagem Justine de Sade com Dom Quixote; para ela só há ligação entre o desejo e a representação a partir de outra representação, isto é, sua inocência, que aparece como um terceiro objeto entre o desejo e a representação – como um Outro que se faz presente nessa relação –, só a faz conhecer o desejo de forma branda, que se dá somente na aparência exterior de uma representação fria e distante. Ademais, a outra personagem de Sade, Juliette, tem os seus desejos compreendidos por completo na representação, constituindo assim um conjunto de discursos e cenas que se reportam diretamente à sua vida e desenrolam, “ao longo dos desejos, das violências, das selvagerias e da morte, o quadro cintilante da representação”[10]. Todavia, a formação desse quadro se dá de forma sutil e, ao mesmo tempo, transparente aos desejos que se concentram e se multiplicam dentro da representação, assim como fizera Dom Quixote que, ao imaginar que desvelava os caminhos do mundo no qual acreditava cegamente nas similitudes, só estava cada vez mais imerso no enovelamento de suas próprias representações. Juliette se dá, portanto, na clausura da idade clássica. Em que todas as possibilidades do desejo se acham fechadas sobre si mesmas, em uma representação que tenta aclarar-se pelo discurso, visando nomear tudo aquilo que lhe dê um prolongamento. Sade se efetiva, pois, no limite do classicismo, ou melhor, na sua iminente crise...
A partir dele, a violência, a vida e a morte, o desejo, a sexualidade vão estender, por sob a representação, uma imensa camada de sombra, que nós agora tentamos retomar como podemos, em nosso discurso, em nossa liberdade, em nosso pensamento. Mas nosso pensamento é tão curto, nossa liberdade tão submissa, nosso discurso tão repisado que é preciso realmente nos darmos conta de que, no fundo, essa sombra subterrânea é um poço de dificuldades[11].
[1] Cabe salientar que a nossa hipótese de vincular a linguagem enquanto representação com a literatura se dá nas distinções do conhecimento entre a era clássica e a modernidade. Para este intento relacionamos a última seção do capítulo VI de Les mot et les choses, intitulada “Le désir et la représentation”, com o texto de uma conferência pronunciada por Foucault nas Facultés Universitaires Saint-Louis, de Bruxelas, nos dias 18 e 19 de março de 1964, que aborda os temas da linguagem e principalmente da literatura. Nossa tentativa está fortemente ligada ao que Foucault considera como uma ruptura do pensamento acerca do que fora a linguagem no classicismo, e do que ela é agora, na era moderna; a literatura possivelmente é um dos principais fatos ocorridos na história do classicismo à idade moderna, analisada, pois, em suas principais descontinuidades, pela estratégia arqueológica.
[2] Cf. Texto da conferência pronunciada por Foucault nas Facultés Universitaires Saint-Louis, de Bruxelas, nos dias 18 e 19 de março de 1964. Tradução de Roberto Machado. In: MACHADO, Roberto. Foucault, a filosofia e a literatura, 3ª edição, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000, p.140.
[3] Cf. Ibid., p.141.
[4] FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Paris. Gallimard, 1966, p. 168. Tradução brasileira:_________. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução Salma Tannus Muchail, 9ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2007, p. 288. Grifo nosso.
[5] Cf. MACHADO, Roberto. Foucault, a filosofia e a literatura, 3ª edição, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000, p.141.
[6] FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Paris. Gallimard, 1966, p. 168. Tradução brasileira:_________. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução Salma Tannus Muchail, 9ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2007, p. 289.
[7] Ibid., p. 168 / Ibid., p. 289.
[8] Ibid., p. 169 / Ibid., p. 290.
[9] Ibid., p. 169 / Ibid., pp. 290.
[10] Ibid., p. 169 / Ibid., pp. 291.
[11] Ibid., p. 170 / Ibid., pp. 292.
[12] Cf. MACHADO, Roberto. Foucault, a filosofia e a literatura, 3ª edição, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000, p.143.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Sérgio Lima Nastasi,
por uma leitura sem imagem...
São poucos os que arriscam ler e investigar os textos de Deleuze. Tem de ter muita coragem, ou como dizem aqui na periferia “tem de ter bagos” para aprofundar em questões concernentes a tantas coisas que fogem ao pensamento ávido por imagens. Alguns professores se surpreendem; outros ficam um tanto invejosos – eu vejo alguns olhares maléficos –; muitos admiram e reconhecem a capacidade e a excelência na escrita, e igualmente a qualidade no uso preciso da última flor do Lácio – nossa herança é vulgar.
Apresento-lhes, a partir daqui, dois excertos (parte da introdução e conclusão) da pesquisa teórica do meu amigo e parceiro de escrita Sérgio Lima Nastasi, que comprovam como ler e escrever a respeito do pensamento de Deleuze não é tão fácil quanto contemplar calmamente os raios e trovões de uma grandiosa tempestade. Talvez a tempestade venha com as palavras vertiginosas do pensamento e da memória que não cessa na representação dos signos – espero que aqui ninguém confunda com astrologia -, mas que procura se efetivar, hic et nunc, pela Diferença e Repetição:
Introdução.
O livro Diferença e repetição, do filósofo francês Gilles Deleuze, foi a sua tese principal[1] de doutoramento e é considerado por muitos pesquisadores o ponto inicial de sua Filosofia – como o próprio autor também assinala. A leitura de tal obra nos permite, então, diversas articulações com conceitos construídos a seguir, principalmente aqueles que aparecem em seus escritos em parceria com Félix Guattari[2]. Na presente pesquisa, nosso objetivo será abordar a crítica da representação realizada nessa obra.
* * *
Luiz Orlandi escreveu que Deleuze, em certo sentido, armou “uma filosofia da diferença oposta à primazia do idêntico”[3], uma filosofia que, nas páginas de Diferença e repetição, não oferece apenas uma crítica na dimensão da linguagem, objeto de nossa pesquisa, mas que promove o destronar desse “primado” em favor das multiplicidades, das inquietantes heterotopias, como pontuava Michel Foucault, que
(...) solapam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, porque arruínam de antemão a “sintaxe”, e não somente aquela que constrói as frases — aquela, menos manifesta, que autoriza “manter juntos” (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas[4].
E ainda Orlandi, em um prefácio que dedica ao livro Juízo e verdade em Deleuze, de Daniel Lins, se refere à importância a qual o nosso autor
(...) mantém firme seu interesse em desenvolver condições que o tornem capaz de uma difícil astúcia: a de experimentar, mesmo através de meios representativos, as zonas sub-representativas, as zonas intensivas de cuja mobilidade depende sua própria constituição, mas das quais ele não é sujeito (...). Como é possível exprimir alguma coisa por fora dessas clausuras [da representação], e alguma coisa que seja interessante, que valha a pena, que valha tanto esforço? Não há receitas para isso. Há encontros, acontecimentos que tornam palpável essa possibilidade: há ações, amores, ódios, há certos filmes, documentário ou não, há romances, poemas, músicas... e também textos, é claro[5].
Desse modo, tendo o problema da representação como objeto, observaremos quatro elementos que definem o coração desta análise: 1º) Generalidade e singularidade; 2º) Acontecimento; 3º) Apresentação e re-apresentação; 4º) Imagem do pensamento e pensamento sem Imagem.
A generalidade será o âmbito no qual falaremos em ideia geral e conceitos genéricos, sua forma ou caráter ordinário assumido pelos critérios de igualdade e semelhança. Ao analisarmos este domínio das generalizações, mostraremos como se dá a sua oposição à singularidade, que tem por aspecto, por sua vez, ser extraordinária com seus processos notáveis.
Por Acontecimento entenderemos as rupturas, as novidades e até mesmo os espaços diferenciais que são os meios onde as singularidades se potencializam[6]. Ao longo do texto, chamaremos de zonas ou topos originais – as heterotopias –, sempre que evocarmos esses espaços diferenciais. A importância da noção de Acontecimento para a nossa pesquisa deriva da necessidade de explicar os dois seguintes aspectos. Em primeiro lugar, que os pontos singulares ou notáveis aparecem verticalmente como intensos, ao passo que, em segundo lugar, os pontos regulares ou ordinários surgem horizontalmente como extensos. Perceberemos, então, que as zonas verticais desses pontos notáveis são espaços intensivos, ou seja, as próprias rupturas. Veremos, assim, como os encontros são formados e por que são acontecimentos.
Entenderemos como os termos Apresentação e re-apresentação encerram, de certo modo, a nossa leitura de Diferença e repetição, pois que são por meio de seus elementos que em cada capítulo faremos uma conexão com as outras noções. Articularemos, notadamente, tais conceitos por meio da leitura da obra As palavras e as coisas, de Michel Foucault (publicado em 1966), livro em que o autor nos esclarece os liames da representação. Assim sendo, compreenderemos o porquê de a representação consistir ou mesmo aproveitar-se de uma organização rigorosamente composta pelas seguintes similitudes: identidade e semelhança, oposição e analogia.
Após essas considerações, descreveremos a última tensão que provocaremos entre representação, diferença e repetição. Com a Imagem do pensamento, percorreremos o capítulo central da tese de Deleuze em que o autor agencia um pensamento sem Imagem em oposição aos modelos que desprezam as forças intensivas, singularidades e os envolvimentos dos pontos notáveis em suas heterotopias. Por um pensamento do Acontecimento em vez dos regulamentos, por assim dizer, ou condições exigidas pela Imagem que se forma e se estabelece dogmática. Tal Imagem subordina a tarefa filosófica envolvendo-a num modelo regular e limitador (...).
Pois bem, com isso queremos dizer que podemos realizar múltiplas leituras de Diferença e repetição. Porque Deleuze insiste numa coexistência de conceitos que desencadeiam fluxos numa série de desdobramentos, há vários centros e modos de percorrê-los (...).
* * *
Conclusão.
Armamos uma tensão entre representação, diferença e repetição. Em cada momento desta pesquisa apontamos como a representação provoca uma dificuldade a essas noções. Aliando-se, entre outros, a Nietzsche e a Foucault, Gilles Deleuze desenvolveu uma crítica aos elementos ou categorias da representação: identidade, semelhança, analogia e oposição. Estas quatro raízes silenciosas e necessárias à tarefa do re-apresentar encerram a diferença numa estrutura ordinária, ou seja, tratam de submetê-la ao Mesmo. Todavia, a diferença é anterior a toda estrutura, ela é pura afirmação e não é carregada ou movida pelo negativo como na dialética hegeliana. Deste modo, se há repetição, o que retorna não é o Mesmo, mas a diferença. O eterno retorno nietzschiano exige a diferença dessa repetição diferencial como gatilho, e não o Mesmo. Este afirmativo Devir heraclitiano nos apresenta, em última análise, um novo espaço e um outro tempo a todo o tempo, o tempo todo. Para a repetição, vimos que o problema da representação é o de permitir uma repetição conservadora, uma reprodução, pois dita uma segunda, uma terceira, uma quarta vez etc. a quaisquer Acontecimentos. O problema da representação para a diferença é o de constituir uma repetição hipotética: as palavras como “pseudo-repetição” das coisas. Mesmo uma representação orgíaca ou infinita vincula a afirmação da diferença sob o conceito. Assim, vimos que o conceito da diferença não pode ser encontrado sob o Mesmo: o que poderemos localizar nestas condições será tão-somente uma diferença conceitual dada pelos níveis genéricos e específicos da lógica aristotélica.
Após esse panorama geral das noções diferença e repetição e, consequentemente do problema da representação, explicamos os oito postulados da “Imagem dogmática do pensamento” que respalda as categorias e concomitantes do campo da representação. Vimos surgir uma fuga de tais estruturas reguladoras por meio de processos e encontros de pontos notáveis, não considerando o pensamento como algo natural, mas como algo forçado, como uma força criadora: um pensamento sem Imagem. A nossa questão: o que podemos com um pensamento sem Imagem? Ora, a resposta não poderia ser tão clara e distinta, não poderia partir de tais princípios ou critérios da Imagem, mas, isto sim, ser deixada aberta às criações não combinadas por “formalismos lógicos”, porém criações que abalam o mundo monocêntrico da “quádrupla raiz”. Entendemos que esse campo da representação trata de expulsar as forças descêntricas da diferença temendo a perda de seus eixos bem ordenados claramente avessos às linhas criativas: diferençações capazes de deixar esse mundo de ponta-cabeça.
São os processos artísticos, finalmente, que resistem ao mundo ordinário e regulador da representação com as linhas de ação da diferença. Para Deleuze, é um pensar como criação e não um pensar por natureza que nos dá a potência para escaparmos do que impõe a representação. Assim, leremos os versos de Antonin Artaud, os desconcertantes fluxos de James Joyce, as inúmeras vertigens do proseado de Raymond Roussel etc. Sendo que podemos sair em defesa dessa expressão et cetera quando esta não busca representar o excesso ou o todo porvir, mas que o possibilita, não na linha do horizonte, porém numa rachadura vertical e intensa, nos apresentando brilhantes espaços diferenciais antes de um ponto final insuficiente e impotente para dizer, a partir dali, que depois tem mais...
[1] Referimo-nos à tese complementar apresentada por Deleuze na ocasião de seu doutoramento em 1968, também publicada em livro posteriormente: Spinoza e o problema da expressão.
[2] Trata-se da produção a quatro mãos com Guattari a partir da década de 1970 com O Anti-Édipo, até o início dos anos 1990 com o lançamento de O que é a filosofia?.
[3] ALLIEZ, Éric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 49. Tradução brasileira: Ana Lúcia de Oliveira.
[4] FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 13. Tradução brasileira: Salma Tannus Muchail.
[5] LINS, Daniel. Juízo e verdade em Deleuze. São Paulo: Annablume, 2004, pp. 9-10 (grifos nossos).
[6] Ainda que em outro contexto, Deleuze escreve que “quando reportamos o movimento a momentos quaisquer, devemos nos tornar capazes de pensar a produção do novo, isto é, do notável e do singular em qualquer um desses momentos” (Cf. DELEUZE, Gilles. Cinema 1: a imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 16. Tradução brasileira: Stella Senra, grifos nossos).
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
1983
MCMLXXXIII
Eduardo Bento
Dos banhos mais demorados
Aos prazeres outrora aclamados
Nosso saber é pura ilusão
Que destoa em pura emoção
Mas donde há pureza
Se aqui só se vê tristeza?
Donde há vida
Se a morte é a saída?
Meus cabelos encanecem
Minhas flores envelhecem
E todos um dia se esquecem
Que as falhas transparecem
E os medos obscurecem
Os inumanos que enlouquecem