segunda-feira, 4 de julho de 2011

OS PALAVRÕES E AS COISAS



OS PALAVRÕES E AS COISAS

OU O PROIBIDÃO DA FILOSOFIA



EDUARDO DE ARAÚJO BENTO

SÉRGIO LIMA NASTASI




PREÂMBULO: DO HERMETISMO AO DIDATISMO

O GRANDE CÉREBRO PELUDO






Parece-nos existir um hiato entre o que exprimem as palavras Entender e Aprender. Tomemos essa noção de Entender, aqui, como algo que se sustenta apenas como agente da opinião (δόξα), não como um conceito que nos apresenta sua forma robusta de compreensão. Aprender pode ser muito mais perigoso que Entender, visto que alguns conceitos penetram surdamente os fundilhos do pensamento. O entendimento imediato percebe “os” signos, ao passo que o apreender supõe “o” significado, isto é, a imediatez é da ordem do Entender assim como o apreender é a própria dimensão do Aprender. Para além das dicotomias que o nosso assunto sugere, há um terceiro campo em que a tensão signo-significado pode advir de modo sorrateiro, se desdobrar, fazendo com que a δόξα e o conceito fiquem logo de escanteio. A este negro buraco daremos o nome de buraco negro.

Contudo, esta terceira via nebulosa é dada por uma compreensão apática e arbitrária das condições particulares do pensamento, na qual a representação do signo-significado nada mais é que um universo singular de uma mente qualquer. Estes são compostos por espasmos tão concretos e afastados da plenitude de um conceito, ou seja, pouco distantes de uma contingência doxológica. Isto é, na atitude de uma apreensão e na rapidez de uma percepção, com esta terça parte obscura da formação de uma pluralidade individual, o ato pensar-falar-ver está condenado ao fechamento das palavras, das ações e da passividade em sua condição hermética de ser. Não obstante, há uma adição contrária de um aposto transluzente em um dado momento entreaberto da noção saber-ver-falar. Todas essas hierarquias conceituais não são mais que a distância referida, ao qual o modo, a maneira e a medida estão sempre interligadas em uma síntese ternária da paixão, da desgraça e da vontade inseridas ao campo do Aprender. Em contrapartida, a refutação ligada ao Entender é a pura falta de vontade de ser. Tal como cada parte de um todo segue um único fluxo, ou poderíamos ainda aludir como cada louco do período medievo segue sua nau com um único destino certo para a total exclusão antropológica.

Vimos, portanto, que o dito terceiro lugar não é exatamente um terceiro elemento, como tudo isso parece propor, mas talvez ele se ofereça como um período oscilante entre o 1 e o ∞. Todavia, se este “meio” vai do 1 até o ∞, não sabemos. Também não sabemos se o buraco negro do cognitivo se estende da δόξα ao Conceito, ou se ao encontrar o conceito ele se vê desarmado em seu desdobramento infinito. E ainda que essa ignorância nos acabrunhe, aqui nasce uma questão: há alguma coisa entre signo e significado que possa ou não permitir o êxodo do Entender ao Aprender?

Não é traçar uma ponte do continente à Nau dos Loucos. Não é fazer rimar, com toda força, δόξα com opinião na sala de aula. Nada disso. É, sobretudo, pensar o pensamento, falar a fala, ver a visão e saber o saber. Ir do ao — não há um término, assim como não houve um início vinculado a uma verdade velada de uma indeterminação incompreensível.

Toda razão passa pelo raio abrupto das insignificâncias minuciosas dos saberes estabelecidos, pelos discursos “fechados”, nas impressões circulares de um conceito que não deveria sofrer por sua “linearidade”. Só quem tem cu arrombado é que necessita deste caminho em direção às definições paradoxais dos conceitos inerentes à destruição: vamos dar uma abertura para as palavras baixas que horrorizam as velhotas eruditas.

Há quem diga que o conceito, pelo seu máximo abstrato, é muito vago e pouco útil; por outro lado, ou pelo seu mínimo concreto, ele é um tanto doxológico e pueril. Podemos considerar, assim, que os limites do conceito (seu para-além do máximo abstrato) residem na próxima borda do buraco negro — talvez este acontecimento seja o Desaprender.

Ocorre algo semelhante na outra ponta, isto é, nada entendemos porque não há um mínimo de signo, não temos, então, o que entender antes do nascimento de um signo — quem sabe este acontecimento seja o Desentender.

Nada impede que o 1 faça parte de outra infinitude, que o buraco negro seja também , ou que o dos desdobramentos conceituais façam o próprio conceito ∞. Ora, com isso não estamos a apontar três infinitudes? Sendo assim, é preciso ter, ao menos, três pernas para não se perder na compreensão de uma fala, por exemplo. E quem pode declarar que pré-entender e pré-aprender são formas do (não-) Ser?

O máximo abstrato é de arrepiar os pelos cerebrais de uma virgem seminua, e nos faz traçar uma linha vertical rumo a um nada incomposto de ser, desonestamente sem “essência” e vergonhosamente bem vestido. Não há o que cogitar se, antes de qualquer dúvida hiperbólica, não dizemos em quais condições possíveis existe a falta de (do) Ser. Podemos, em linhas gerais, admitir que haja um entendimento inato, ou até mesmo um a priori linguístico de uma apreensão nas mesmas condições e características das inúmeras negações do ? Se, ao invés de cogitarmos para validar a existência nós disséssemos necessariamente a sumária expressão “cogito, sed non sum”, a faixa obscura das vontades do saber, bem como o nosso ponto cego do crer, trar-nos-ia um novo acontecimento? Talvez fosse ele não mais na ordem do seu máximo abstrato do Desaprender, nem o momento factual antes da concepção do signo no plano do Desentender. Porventura, este novo momento, entre os dois eventos supracitados do buraco negro, de uma ponta à outra, intermitentemente, apresentar-mos-ia como a nudez do Desconhecer.

* * *

Leia a parte II no blog do Serginho: ÁGORAS DE MARÇO

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sobre Criminologia


Acredito que poucos sabem o que é a Criminologia, então lá vai uma pequena explanação.

A Criminologia é considerada ciência autônoma, fonte de recursos essenciais ao Direito, com enorme influência no Direito Penal. Busca justificativa para os delitos, avalia tudo que envolve o crime e o delinquente, oferecendo a natureza do fato típico praticado.

Etimologicamente, a palavra criminologia tem seu prefixo originário no latim crimen (crime) e o sufixo grego logo (tratado). Numa busca ampla por seus diversos conceitos, há poucas divergências doutrinárias acerca do assunto.

O profissional da Criminologia faz um diagnóstico do infrator e classifica o crime. Assim, um criminólogo compartilha de seus conhecimentos sobre a tipologia do criminoso e pode orientar sobre as causas do crime ou até mesmo impedir que algum delito venha a acontecer.

Essa ciência evoluiu no decorrer do tempo, possuindo diversas classificações. Dentre as mais conhecidas, o desenvolvimento da Criminologia foi dividido majoritariamente pela doutrina em duas escolas: Clássica e Positiva. No decorrer da história houve mudanças no pensamento criminológico, que passaram do conhecimento pela legitimidade do direito de punir, pelo criminoso nato com características inerentes desde o nascimento e também pela transformação do indivíduo causada pela sociedade.

Atualmente vemos a formação do mais novo ramo, que unifica as ciências da Criminologia e da Genética, tendo como principal alvo identificar potenciais criminosos através do DNA, comparando perfis genéticos de amostra desses indivíduos com outras amostras de referência, extraídos de criminosos outrora pesquisados e avaliados.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Momento Giorgio Colli

Amigos e amigas,

Por inspiração arqueológica do grande amigo e pesquisador Prof. Sérgio Lima Nastasi, e por lembrar as incríveis aulas do Prof. Dr. Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio, deixo-lhes um interessante texto a respeito do "Nascimento da Filosofia" escrito por Giorgio Colli em 1975, e traduzido para o português por Federico Carotti em 1992...

Eis o primeiro parágrafo:

As origens da filosofia grega – e, portanto, de todo o pensamento ocidental – são misteriosas. Segundo a tradição erudita, a filosofia nasce com Tales e Anaximandro; no século XIX, buscaram-se suas origens mais remotas em lendários contatos com as culturas orientais, com o pensamento egípcio e o indiano. Por essa via não foi possível comprovar coisa alguma, só se conseguiram estabelecer analogias e paralelismos. Na verdade, o tempo das origens da filosofia grega está muito mais próximo de nós. Platão chama “filosofia” – o amor à sabedoria – à própria busca, à própria atividade educativa, ligada a uma expressão escrita, à forma literária do diálogo. E Platão olha reverente o passado, um mundo em que existiram os verdadeiros “sábios”. Por outro lado, a filosofia posterior, a nossa filosofia, é apenas uma continuação, um desenvolvimento da forma literária introduzida por Platão; contudo, esta surge como fenômeno de decadência, na medida em que o “amor à sabedoria” está mais abaixo da “sabedoria”. O amor à sabedoria, para Platão, não significava de fato a aspiração a algo nunca atingido, mas sim uma tendência a recuperar aquilo que já fora realizado e vivido.[1]

O livro na íntegra está disponível no link abaixo:

http://www.4shared.com/document/MjjMHKs-/O_NASCIMENTO_DA_FILOSOFIA0002.html



[1] COLLI, G. O nascimento da filosofia, p. 9-10.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um pequeno debuxo

Para fazer jus ao nome do blog - “Bosquejos” - eu, humildemente, escrevo-lhes alguns aforismos de minha autoria à luz dos meus estudos filosóficos. Sem nenhuma pretensão moralista ou intelectualmente erudita de convencer alguém de alguma verdade inexistente. Isto é apenas uma espécie de “treino” para a minha vasta ignorância...



Primeiro aforismo: A ressignificação do significado-significante está para além de uma re-apresentação representada duas vezes pela própria apresentação. E o professor disse: “Eis o signo!”.

Segundo: Um dia houve a morte de Deus e o desvanecimento do Homem. Se as letras hoje minúsculas foram maiúsculas, então haverá um dia o encobrimento da linguagem? Pensemos...

Terceiro: Não somos os anunciadores da verdade, muito menos os denunciadores das mentiras. Todo discurso é tão mentiroso quanto é verdadeira a ausência de evolução entre nós. Se há alguma propensão para um fim, então houve um início de algo que ainda nem começou.

Quarto: As provas são uma forma vulgar de julgamento das capacidades que não pertencem ao mundo inteiro. É uma relação que podemos denominar saber-poder.

Quinto: A história é tradicionalmente aceita como contínua. O olhar de todos, e o escutar de poucos, não está presente nesta historicidade normal.

Sexto: Que venham os novos tempos de transformações avelhantadas!

Sétimo: Se as sentenças curtas revelam realmente alguma verdade nas palavras, em suas máximas eticamente compreendidas, por que então há tanta discussão sobre o caráter verdadeiro de nossa condição? Não há uma única verdade, assim como não existe uma visão de mundo universal...